Por que há mais homens que mulheres ativos na Ciclovida?

A Ciclovida criou um Comitê Temporário de Paridade para investigar sobre a (escassez de) participação de mulheres na Ciclovida.

O relatório final pode ser lido aqui. E começa com considerações muito importantes da Jéssica Carneiro, cujo spoiler revelamos aqui para instigar a leitura do relatório completo!

 

Cicloativismo, desigualdade de gênero e direito à cidade

Inicialmente, pretende-se discutir aqui fatores e razões que estejam para além das discussões da pouca presença de mulheres no cicloativismo. Antes de pensarmos nos possíveis motivos que fazem as mulheres quererem participar mais ou menos de determinados espaços, é preciso problematizar quais são as condições e as circunstâncias que permitam não apenas um maior número de mulheres nesse espaço, mas de uma participação mais efetiva em qualidade.

Pensar as disputas dos espaços públicos, da mobilidade urbana e dos corpos que podem usufruir mais ou menos a rua é pensar, principalmente, a percepção de público/privado que circunscreve todas as nossas relações sociais, desde as mais íntimas. Historicamente, a relação entre os sexos feminino e masculino sempre foram de oposição e de assimetria, em que o primeiro se coloca a serviço do segundo. Muitas teóricas feministas tentam decifrar a origem das desigualdades de gênero.

O patriarcado, sistema em que a força reprodutiva das mulheres é colocada à disposição dos homens, mostra-se como uma das grandes explicações que são dadas para entender a origem dessa disputa sexual, entendendo a mulher como o primeiro objeto a ser tomado como propriedade privada. Nesse contexto, as civilizações ocidentais têm entendido, desde muito tempo, a mulher não apenas como um objeto de posse, sobre o qual o homem deteria todo o poder, mas também – por ter sido objetificada – um sujeito inferior, menos desenvolvido e incapaz de pensar por si.

Neste movimento de inferiorização, junto ao desenvolvimento da modernidade no ocidente, cada vez mais as mulheres eram designadas ao espaço do lar, do privado, tornando-se um ser apolítico, ou seja, inábil para discutir as questões da pólis. Essa separação bem demarcada entre quem eram os sujeitos que podiam ocupar o espaço da “respublica” (“espaço do povo”) e os que eram designados às atividades domésticas, do lar, não dizia respeito apenas sobre uma simples divisão sexual do trabalho, mas sobretudo quais eram as vozes que poderiam ser escutadas e as vozes silenciadas.

Mesmo com o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, com a implementação do capitalismo industrial no ocidente, a inferiorização do feminino foi perpetuada, ainda que elas empregassem a mesma força de trabalho que os homens. As barreiras do lar foram rompidas pelas mulheres, mas a sujeição histórica a que foram acometidas se repetia (e continua se repetindo) nos espaços públicos, no trabalho, dentro das famílias e em diversas esferas. A disputa do espaço público pela mulher como uma disputa política – de ser um sujeito que não apenas ocupa, mas quer ser visibilizado e ganhar voz – é um movimento que perdura até os dias atuais, e a ocupação das ruas através do ciclismo/cicloativismo não poderia ser diferente.

Pensando as ruas como um espaço de disputa não só físico (de quem pode ocupar mais ou menos espaço), mas primordialmente de disputa simbólica e política, a reivindicação de que mulheres se façam mais presentes em movimentos ciclistas e ativistas é, antes, uma discussão de quais são os corpos que podem circular livremente no espaço público, que podem usufruir mais ou menos de determinados lugares, que podem gozar de determinados direitos e privilégios, de quais corpos são mais ou menos violáveis e vulneráveis.

Assim, é necessário debater, antes de tentar entender as possíveis razões pessoais ou coletivas que levam mulheres a (não) engajar-se com o cicloativismo, como a mulher – enquanto sujeito a quem historicamente lhe foi negado o direito de disputar o espaço público – pode ressignificar sua própria relação com a rua, com seu corpo, com seu gênero. Em outras palavras, o cicloativismo precisa pensar quais são as condições que estão sendo dadas – físicas, estruturais, políticas e simbólicas – para que as mulheres possam disputar e reivindicar o ciclismo como uma expressão de sua cidadania e de sua liberdade. É preciso engajar homens e mulheres nesse debate de como as mulheres têm conseguido em maior ou em menor medida vencer o desafio de andar nas ruas sem temer que seus corpos sejam violados, de que sua integridade seja atacada, de serem negadas o espaço e a voz.

A (não) participação de mulheres em movimentos cicloativistas, em diferentes proporções, tem uma relação direta com esses espaços que foram negados à mulher, e que exige muita luta para que sejam disputados. Reivindicar a participação de mulheres nas ruas e nas ciclovias é, em última instância, batalhar por uma não inferiorização do feminino, por uma equanimidade entre os sexos dentro e fora das ruas, por um combate ao machismo e ao patriarcado que habitam todos nós, e que continuam a subjugar os corpos femininos à violência. É lutar por uma efetivação do direito à cidade.

Dessa forma, o feminismo enquanto movimento tem sido de extrema importância e precisa continuar sendo propagado porque contribui para discutir exatamente essas questões que tangenciam a experiência de ser mulher para além das ruas. Trazer o debate feminista para dentro do cicloativismo é fundamental não para ter mais mulheres participando de grupos cicloativistas, mas pra que os problemas que incidem sobre o cicloativismo sejam combatidos em sua raiz, de forma a problematizar o ciclismo além da relação “bicicleta + rua”. Esse debate pode proporcionar uma reflexão, antes, sobre quais são as dificuldades, os medos e o que tem impedido as mulheres de disputar os espaços públicos e ocupar as ruas, ajudando a pensar primeiro em como podemos lutar pela inviolabilidade do corpo da mulher, pela não violência física, emocional e psicológica de mulheres, empoderando-as e fortalecendo sua resistência. Ser mulher e ocupar os espaços públicos, disputar física e simbolicamente as ruas é também um ato de enfrentamento, de não resignação e de luta por uma igualdade de gênero.

Em última instância, a questão das desigualdades de gênero no cicloativismo enriqueceria seu debate ao pensar não apenas a participação (ou não) de mulheres em termos de números, em uma preocupação de paridade e de representatividade, mas especialmente em promover condições ou dar subsídios para que as mulheres consigam enfrentar suas causas, superar os obstáculos que as impedem de envolver-se com o cicloativismo, e, principalmente, de exercer sua autonomia e direito à cidade, de circular livremente onde quer que seja. De serem respeitadas e visibilizadas.

É interessante que essas temáticas habitem os movimentos cicloativistas e ultrapassem a discussão do machismo apenas dentro do cicloativismo, de modo que a bandeira do feminismo e de outros movimentos que representam “minorias” sejam condição para os grupos cicloativistas desempenharem seu papel na sociedade. Que o interesse na emancipação e na autonomia das mulheres, dentro e fora das ruas, seja um combustível para a existência do cicloativismo.