Pedalar não é mais perigoso que dirigir um carro

O prazer de pedalar veio hoje com força em duas ocasiões:

1) Quando, na ida à primeira aula, pedalei na chuva e cheguei na sala de reunião totalmente seco;

2) Quando, na volta da última aula, persegui a lua, na minha amada Rua Francisco Holanda – tarde da noite, com o silêncio da ausência de carros, e as árvores…

Assalto a carro.

Motoristas também são assaltados, mas isso não é novidade.

Infelizmente, sou forçado a falar do fato que quase presenciei na Rua Vicente Leite, quando eu a cruzava por uma perpendicular. Ouvi um estampido, umas vozes apressadas e, quando cruzei a rua, vi uns rapazes correndo na direção oposta a onde havia um carro parado em frente à entrada de um estacionamento. Levei uns segundos para interpretar a cena como um assalto e ligar para a polícia: certamente, assaltaram o carro quando este esperava o portão abrir.

Depois de um tempo, cansa tratar sobre um tema eivado de preconceitos e certezas derivadas de um senso-comum inquestionável. Quando o Sistema Verdes Mares decidiu atacar as ciclofaixas da Varjota – decerto a segurança dos ciclistas incomodou a passagem do carro dos poderosos da mídia -, passaram uma mulher com seus ares lá de arrogância: “primeiro que não dá nem para andar de bicicleta, que é assaltado”.

Não parece ser muito difícil assaltar um motorista no semáforo.

Não parece ser muito difícil assaltar um motorista no semáforo.

É um tanto estranho que essa afirmação costume vir com um tom tão pesado de arrogância, mas costuma. Talvez a arrogância e a ignorância sejam irmãs. É difícil ser arrogante quando seu (sempre insuficiente) conhecimento lhe diz que cada assunto é mais complexo do que parece. Já a ignorância diz-lhe que a verdade é essa, simples, e pronto. É óbvio que o carro é mais seguro. Dã!

Tenho uma percepção pessoal de que o mito da segurança do carro é um dos mais importantes motivos para Fortaleza estar assim, tão apavorada. Imagina só que perigo é uma cidade na qual eu sou assaltado dentro do meu veículo hiper-ultra-mega seguro. Só pode ser uma cidade hiper-ultra-mega perigosa. Até porque se eu, no meu veículo hiper-ultra-mega seguro, sou assaltado, pense aí nos que não estão em veículos hiper-ultra-mega seguros!

Também não parece muito difícil assaltar um motorista no congestionamento.

Também não parece muito difícil assaltar um motorista no congestionamento.

Não falo da periculosidade da cidade, que é real. Falo da sensação de insegurança, que é maximizada por mitos – que, inclusive, o impedem de optar por uma conduta que o exponha menos a situações de risco.

Não é à toa que os pontos críticos de assalto sejam em cruzamentos com semáforo. Alvos presos entre um veículo à sua frente e um veículo atrás são o cúmulo da conveniência para bandidos. Parece ser difícil perceber que, se a rua é perigosa, não é lá a melhor opção de todas um veículo que te deixe preso nesta mesma rua. Assaltar veículos que aguardam a abertura do portão também é uma prática muito comum. E fácil.

Carros são convenientes para sequestros

Carros são convenientes para sequestros

O risco de perdas maiores do que parcela do patrimônio é infinitamente maior em um carro. Desde o sequestro relâmpago (um carro com fumê, que conveniente!) até o próprio latrocínio, tendo em vista que, estando você no seu veículo hiper-ultra-mega potente, o bandido está sempre com o dedo hiper-ultra-mega bem posicionado no gatilho. Certa vez, parei de bicicleta ao lado de um carro, cujo motorista assustou-se e acelerou embicando para o outro lado – conduta que poderia ter, como reação do bandido, um tiro. Assim foi assassinado um estudante da UFC, já que atirar foi a forma de fazer o carro parar.

Você pode acelerar a qualquer hora, e por isso o dedo dele está preparado no gatilho.

Você pode acelerar a qualquer hora, e por isso o dedo dele está preparado no gatilho.

Pessoalmente, já fui assaltado de carro, esperando ônibus e a pé. Praticamente, um desafio intermodal da segurança pública. Nunca fui assaltado de bicicleta. E o mesmo padrão conheço em amigos que usam a bicicleta como meio de transporte. Talvez os fatores que diminuem o risco ao ciclista – em comparação com o carro – sejam a melhor visualização do que ocorre ao redor e a maior mobilidade – podendo o ciclista dar meia-volta se houver algo suspeito ali na frente. Outros fatores também existem, mas são vários e não cabe enumerar agora. De qualquer maneira, pedalo com a segurança de que o risco de ser assassinado por um bandido é muito menor em relação a quando dirijo, já que minha bicicleta não é nenhuma hiper-ultra-mega ameaça a ninguém.

A cidade pode não ser totalmente segura para andar de bicicleta, mas, definitivamente, não é mais segura para quem dirige um carro.

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