O Apartheid é aqui

Tenho estado muito ocupado devido à dissertação e outros afazeres do meu cotidiano. O falecimento de Mandela, porém, requer mesmo a atenção de todos e pede que paremos, por um pouco, o que estivermos fazendo. Não somente pelo falecimento em si, mas pela reflexão que promove em relação à sua luta e os reflexos no nosso contexto atual.

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E o nosso contexto atual está longe de ser satisfatório. Fortaleza é a 5ª cidade mais desigual do mundo, na qual negros recebem até 75,66% do salário de não negros. Como se isso já não bastasse, toda essa desigualdade é facilmente percebida – por quem se dispuser a percebê-la – nas nossas relações sociais.

Um tempo atrás eu saía de meu apartamento para pegar o elevador ao mesmo tempo em que um pedreiro saía do apartamento da frente. Ao me ver, ele desceu a escada. Não achei, na hora, a atitude estranha, mas, tempos depois, percebi o motivo. Nossos trabalhadores de baixo escalão não estão acostumados a dividir o elevador com a elite dos prédios: os moradores. Não é um comportamento voluntário, mas um reflexo da tradicional relação de subserviência entre trabalhadores braçais e as classes mais abastadas. Aqueles não devem entrar no caminho destes, ainda que não haja qualquer relação de trabalho entre eles.

A visão do outro como um ser inferior, hoje, ocorre não somente – mas também – devido à cor da pele. A vestimenta, a orientação sexual, o gênero e até a forma de se locomover mudam o tratamento que é dispensado à pessoa. A grande diferença é que, na atualidade, este tratamento não é admitido, e muitas vezes nem mesmo é percebido pelo opressor (veja-se White Ignorance, de Charles Mills, no qual se demonstra como a ignorância é produzida e mantida de forma a manter as relações de opressão racial; veja-se também Understanding Disadvantage partly through an Epistemology of Ignorance, de Dermot Feenan, segundo o qual a cultura predominantemente machista no Poder Judiciário não é admitida pelos homens, mas amplamente percebida pelas mulheres).

Da mesma forma que o trabalhador braçal deve ir para o elevador de serviço – ou à escada, se só houver um elevador -, o ciclista é visto como um intruso na faixa que alguns inventaram de denominar “de carros”. Qual é o grande absurdo, afinal, de um ciclista ocupar a faixa? Não se sabe, só se sabe que é um absurdo. É um sentimento natural, derivado dos nossos costumes. Onde já se viu um ciclista – que, no nosso contexto social, é geralmente um trabalhador braçal – ocupando a faixa? Onde já se viu um negro usando o mesmo banheiro que um branco, durante o Apartheid?

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Em um esforço deplorável para justificar os próprios preconceitos, um cidadão me disse que ele podia ocupar a faixa com o carro porque pagava IPVA. Essa ignorância seria justificável se ele não fosse um advogado. Alguns outros não se metem a falar do que não sabem e são práticos: as bicicletas atrapalham, porque são mais lentas. Um amigo me disse que, em determinada avenida de São Paulo, as três faixas ficam paradas, e o motorista ainda tem que esperar atrás do ciclista na faixa da direita. Daí surge mais uma evidência do nosso preconceito. Se há carros impedindo que você faça a ultrapassagem pela esquerda, por que diabos você só tem raiva do ciclista? É muito fácil perceber que, se você não está conseguindo ultrapassar o ciclista, é porque existem obstáculos também nas outras faixas. Mas o ódio seletivo é também muito fácil de perceber: entre os três cidadãos que impedem sua passagem (dois de carro e um de bicicleta), o único descartável é o ciclista.

 

Celso Sakuraba
Advogado

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