Franciscos podem matar

Por Celso Sakuraba

Antes do assassinato de Adrian, seria considerado injurioso dizer que Francisco poderia matar. Na audiência criminal, Francisco mostrou fugir de qualquer estigma que se queira colocar sobre assassinos no trânsito. Não é um playboy com seu Camaro que bebe e conduz a 200km/h. Não é um homem arrogante que se irrita facilmente com qualquer provocação e chama para a briga para resolver as contas. Francisco é um pacato cidadão trabalhador que luta para pagar suas contas como muitos cidadãos trabalhadores na desigual Fortaleza.

Depois do fato consumado, dói nos brios relatar uma imagem humanizada do agressor, mas parece ser necessário para se entender como se dão as dinâmicas que colocam o Brasil em 4º lugar no grupo dos países em que mais se mata no trânsito. Por aqui, convém a todos traçar uma linha que separa a ala dos bandidos, aonde Francisco foi empurrado após assassinar Adrian, dos cidadãos comuns, aqueles que nunca, nunca poderiam matar.

Queremos nos identificar com o Adrian, mas nós somos muito mais Francisco. Adrian não tinha condições de ser levado de carro pelos pais à escola. Francisco dirige rotineiramente como parte de um cotidiano que, se a ele não é facultativo por ser seu emprego, a nós é, mas o seguimos por uma inércia cultural. A consciência do perigo mortal do ato de dirigir existia quando do advento do automóvel. A indústria automobilística, porém, investiu e tem investido pesado em publicidade para mudar esta perspectiva desde os anos 20. Hoje, dirigir é considerado um ato cotidiano, banal e com requintes de sofisticação que tornam a pessoa mais digna do que quem não dirige. Não é que as mortes no trânsito caíram, mas agora elas são consideradas acidentes, muitas vezes causadas porque pessoas que não estão em veículos mortíferos não fizeram a sua parte de cuidarem para não serem assassinadas.

A linguagem tradicional das campanhas de segurança no trânsito também se identifica com o agressor. Nelas, não há agressor. Há cidadãos comuns vitimados por seres inanimados que, no trânsito, ganham vida própria: álcool, velocidade, celular. Quem mata não é a pessoa que dá uma olhadinha na mensagem enquanto está no volante. Quem mata é o celular. A empatia da nossa linguagem é a permissividade do nosso cotidiano. Nós, olhemos ou não o celular, bebamos ou não antes de dirigir, tomemos ou não todas as precauções quando dirigimos, nunca somos agressores, apenas vítimas. Ai de quem ousar colocar o cidadão comum perante a desconfortável realidade de que ele pode matar.

Parece mesmo exagerado, depois de tanta publicidade automobilística e tanto investimento público em sistemas de trânsito baseados em carro, dizer que quem dirige pode matar. Francisco apenas cumpria sua função neste sistema, como qualquer um de nós. Nós, Franciscos, nunca mataríamos alguém.