É permitido matar; é proibido morrer: A política da AMC que quase me matou

Na primeira reunião com os ciclistas depois da popularmente festejada ciclofaixa da Ana Bilhar, pintada pelo povo, Arcelino,presidente em exercício da AMC, demonstrou sua ignorância no quesito segurança no trânsito – o que talvez possa ser explicado pelo fato de a AMC, historicamente, só se preocupar em aumentar a velocidade dos carros – ao afirmar que o fato de os ciclistas fortalezenses pararem, mesmo na preferencial, dando passagem aos carros, garante a segurança deles. Ou seja, você está na Av. Santos Dumont e tem que parar todo quarteirão, para que os veículos que vêm pela secundária possam passar tranquilamente, sem que você os incomode.

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É a cartilha estúpida e opressora do Arcelino que muitos motoristas de Fortaleza seguem. Quando veem um ciclista, pensam “quem vai morrer não sou eu: ele que pare”, e avançam a preferencial. É o mesmo comportamento dos motoristas na movimentada e estreita Av. Sargento Hermínio: só fazem a ultrapassagem na contra-mão quando veem que vem um motociclista, obrigando este a reduzir a velocidade e até mesmo a esquivar destes veículos que fazem ultrapassagem perigosa. Quando vem um caminhão, claro, esses mesmos motoristas não se arriscam. O risco só vale quando a morte é do outro.

Nesta semana, eu trafegava por uma rua preferencial, quando um carro parou numa transversal. Vendo que vinha um ciclista, avançou. Sim, eu teria morrido se eu não tivesse já previsto este comportamento irresponsável legitimado pelo Arcelino. Depois de quase me matar, com o carro parado no meio do cruzamento, a motorista abriu a janela pedindo desculpas. E isso não deixa de ser explicável, já que nosso comportamento no trânsito é moldado pela política de mobilidade da Prefeitura. Como todos jogam o carro para cima do ciclista sem serem repreendidos, o comportamento torna-se padrão e repetimos quase que naturalmente.

Daria muito trabalho para a AMC estudar a política de trânsito das melhores cidades cicláveis ao redor do mundo. Daria um trabalho tremendo educar o povo e multar as infrações que colocam em risco a vida do ciclista. É muito mais fácil e muito mais cômodo, para a AMC, continuar sendo irresponsavelmente omissa e recomendar aos ciclistas que parem diante de veículos maiores. Assim, quando alguém morrer, basta colocar a culpa no ciclista que utilizou devidamente a preferencial.

É importante lembrar que não se trata de mera incompetência do órgão. A impunidade dos agressores é oficial: a AMC não multa condutas de desrespeito ao ciclista. E isso, somado à posição do Arcelino de que a solução é obrigar os ciclistas a parar a cada quarteirão, deixa clara a política da AMC: É permitido matar; é proibido morrer.

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Enquanto este pensamento realizar a gestão do nosso órgão de trânsito municipal – que nem sequer possui um setor que estude a mobilidade não-motorizada! – será difícil alcançarmos reais avanços, para além das medidas midiáticas e eleitoreiras. E, assim, continuaremos tendo um ciclista morto a cada duas semanas em nossa cidade.

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