Dá preguiça ligar o farol baixo em rodovia

Hoje dirigi na Av. Washington Soares durante o dia. Liguei o farol baixo.

Foi mais fácil que acessar a ciclovia de bicicleta. Que não é fácil.

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O rodoviarismo é folgado e elitista.

Acender o farol baixo não é sequer um esforço, mas há quem reclame. Há quem reclame também de ter que procurar um estacionamento privado para seu problema privado de guardar o carro, quando a função pública da via pública é resgatada. Há quem ache um absurdo ter que mudar de faixa para ultrapassar uma pessoa de bicicleta, porque as mortes causadas pela infração à norma não são mais importantes que a comodidade de ignorar a vida de uma pessoa e seguir em frente como se ela não existisse.

Mas não é que o pensamento rodoviarista pretenda que os deslocamentos sejam cômodos. A comodidade pressupõe hierarquia social. Assim como o cidadão de bem quer ser tratado com mordomias por um garçom, mas não quer tratar do mesmo jeito o marceneiro que faz obra em seu prédio, a subordinação entre castas está presente também no trânsito. Ligar o farol baixo é incômodo – a culpa é do Estado. Atravessar a via fora da passarela é coisa de folgado – se morrer, é culpa do pedestre. Querer que haja solução para o deslocamento ciclístico no contrafluxo é coisa de folgado. Mas o Estado tem que gerir as vias para o cidadão de carro chegar mais rápido.

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Décadas de banalização do uso do carro tornaram 41 mil mortes anuais no trânsito brasileiro uma estatística normal. O investimento maciço em publicidade pela indústria automobilística se soma à caracterização como “acidente” das mortes no trânsito para tornar este número apenas um pano de fundo sobre o qual as coisas acontecem normalmente. É normal morrer no trânsito. É a forma mais fácil de matar um personagem. Fala-se que a vida humana é frágil. Nunca se fala que o carro é mortífero.

Quando do início do surgimento dos motorizados nas ruas, um juiz norte-americano sentenciou que a condução de um veículo tão perigoso pressupõe doses elevadas de responsabilidade – muito acima, obviamente, dos deslocamentos inofensivos. A periculosidade do motor fundamenta as exigências relacionadas ao seu uso. As mortes no trânsito mostram que essas exigências estão aquém do necessário. Mas, de lá pra cá, banalizou-se o uso do motor, e quem conduz um carro acha um saco as normas de segurança, como ligar o farol baixo em rodovia. Claro que o mesmo cidadão motorista quer que o piloto de avião esteja sempre atualizado perante as normas de segurança da aviação. As mortes aceitas são no trânsito – de avião não pode.

Obviamente, há uma diferença abissal na periculosidade dos dois modos de deslocamento. Mortes com carro são incomparavelmente mais frequentes.

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Tantas mortes seriam evitadas se não fosse a arrogância. É arrogância absurda concluir pela inutilidade do farol baixo em rodovias sem ir atrás dos fundamentos técnicos. A arrogância está acima de profissinais qualificados, de estudos embasados, de estatísticas analisadas. A arrogância dispensa tudo isso. O cidadão rodoviarista sabe de tudo.

E, se não sabe, não quer saber. Como o tal que disse que certa faixa de ônibus implantada pela Prefeitura de São Paulo foi feita sem estudos. Ele foi atrás dos estudos? Não. Ele solicitou os estudos à Prefeitura? Não. A CET tem dados em abundância para fundamentar cada faixa de ônibus, inclusive com os resultados em termos de diminuição do tempo de deslocamento. Mas a arrogância se alia à conveniência elitista de querer prejudicar os cidadãos de ônibus pelo mero regojizo visual de uma faixa a mais para carros – que não pressupõe mais velocidade para os mesmos carros.

O trânsito tem a capacidade de brincar com nossas arrogâncias. É claro que uma faixa a mais melhora o trânsito. É claro que viadutos melhoram o trânsito. É claro que R$ 2 bi de dinheiro público gastos na ampliação da marginal do Tietê trarão melhorias no fluxo viário.

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É mesmo bizarro atravessar a ponte sobre o Rio Cocó e desligar o farol baixo. A Av. Washington Soares muda de nome para Av. Eng. Santana Júnior, e as normas são outras.

O problema não é acender o farol baixo na rodovia, e sim a rodovia em zona urbana. O descaso truculento ao deslocamento a pé e de bicicleta, em situção de flagrande ilegalidade perante a lei da Política Nacional de Mobilidade Urbana. O Detran, que acha mortes no trânsito cearense normais devido à “natureza humana”, não larga o osso da via, que já deveria ter sido municipalizada. E segue aplicando medidas rodoviaristas da década de 50, há muito ultrapassadas, sob argumentos pífios, como o de que “acessibilidade no Brasil é um tema recente, aproximadamente 10 anos”.