A mídia fortalezense tem abordado de forma errada as ciclofaixas.

As ciclofaixas instaladas na Rua Ana Bilhar e na Rua Canuto de Aguiar deram o que falar, por diversos motivos. Primeiro, porque foram frutos da luta popular: derivaram da repercussão causada pela ciclofaixa cidadã do Massa Crítica, amplamente aplaudida pela população (ressalte-se que não foi só por ali que o Massa Crítica atuou). Segundo, porque foram implantadas em área nobre, dominada por uma elite que, como a tradicional elite brasileira, considera humilhante ter que fazer algum esforço físico para se deslocar.

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Parte da mídia decidiu dar voz a reclamações que surgiram contra as ciclofaixas. Isso, naturalmente, exigiu um certo esforço, já que os especialistas são a favor das ciclofaixas e os insatisfeitos não estão tão convictos assim para fazer uma manifestação ou elaborar um documento fundamentado demonstrando seu desapreço.

A pauta escolhida, portanto, foi a quantidade de ciclistas que transitam pelas ciclofaixas. Abordada de forma desonesta pelo Diário do Nordeste, que fez uma contagem em pleno domingo, dia em que, obviamente, o fluxo de qualquer tipo de veículo é infinitamente menor, a discussão acabou sendo levada para outros canais de comunicação. Aliás, o Tribuna do Ceará fez uma excelente e completa matéria sobre o assunto, contabilizando 1.109 ciclistas durante 48h nas ciclofaixas.

Acontece que a quantidade atual de ciclistas não é, nem de longe, a principal questão relacionada às ciclofaixas. Ao contrário do que muitos vêm, irresponsavelmente, afirmando por aí, houve um estudo competentemente executado por engenheiro da AMC para a escolha das vias que receberiam as ciclofaixas. A quantidade de ciclistas, apesar de ter sido contabilizada e considerada, não foi nem mesmo apontado como critério, por um motivo óbvio: o intuito das ciclofaixas é, justamente, de atrair utilizadores.

O congestionamento é um dos problemas que seriam resolvido com o uso dos modos de deslocamento ativo (Foto: Divulgação)

O congestionamento é um dos problemas que seriam resolvido com o uso dos modos de deslocamento ativo (Foto: Divulgação)

Os pesquisadores sobre mobilidade urbana estão carecas de saber que o congestionamento é causado pelo uso excessivo do carro. A única forma de resolvê-lo é fazendo com que as pessoas optem por modais alternativos: seja o transporte público, a bicicleta ou a caminhada. É a qualidade do deslocamento através destes modais que possui a capacidade de melhorar a mobilidade urbana. O enfoque não é diferente com as nossas ciclofaixas. Tendo elas sido criadas para atrair utilizadores ao modal bicicleta, conforme indica o próprio estudo da AMC, é esta capacidade de atração que precisa ser colocada em pauta.

Com isso, muitos defeitos podem ser encontrados nas ciclofaixas implementadas: são pequenas demais e em pouca quantidade, pelo que incentiva apenas uma pequeníssima quantidade de pessoas a aderir à bicicleta: aquelas que moram e trabalham na região das ciclofaixas e que transitam na direção leste-oeste (já que as ciclofaixas das Ruas Joaquim Nabuco e Osvaldo Cruz não foram implementadas). Nós já conhecemos pessoas que se encaixam nessas restritas características e que deixaram o carro para se deslocar de bicicleta, representando, portanto, alguns carros a menos no congestionamento. São, porém, muito poucas, devido ao reduzido alcance das ciclofaixas.

A relação é muito clara: quanto maior o alcance das ciclofaixas, maior será a quantidade de pessoas que aderirão à bicicleta. E pode ter certeza que a mudança cultural não vai acontecer de um dia para o outro: tanto Copenhague como Bogotá ou Nova Iorque levaram anos para mudar seu trânsito. Mas conseguiram.

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Viciados em congestionamentos, muitas pessoas veem as ciclofaixas vazias e as consideram um fracasso. A existência de uma alternativa que garanta um fluxo livre, porém, já é um sinal de que seus objetivos estão sendo alcançados. O cidadão passa a ter uma opção para além do congestionamento. Para que se mude a cultura carrocêntrica, é preciso tempo – e uma brutal ampliação das obras cicloviárias.

Apesar de que a avaliação dos efeitos das ciclofaixas deve ser realizada a longo prazo, uma coisa é certa: não é tirando-as que convenceremos mais pessoas a largar seu carro por um modal menos prejudicial à cidade.

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